domingo, 10 de abril de 2011

Um pequeno grande amigo

    No dia em que ele nasceu, o vi como uma criança qualquer. Não imaginei que estaria ligada a ele mais tarde. Jamais pensei que o instruiria em três anos consecutivos numa escola em que eu lecionava.
    Ele não aparenta  a idade que tem, parece mais jovem , fazendo com que fique mais dengoso e indefeso pelo tratamento que recebe, principalmente de minha parte. Não consigo vê-lo com sua idade real.
    Nesses anos todos de convivência professora/aluno, na escola, cantamos juntos, trocamos lanche (mais da minha parte que da dele) e rimos de bobagens. Às vezes reclamava quando conversava porque tinha dia que conversava mais que a “negra do leite”.
    Quando temos relacionamento de irmã/irmão na igreja, ele vem pra pertinho de mim com  papel e caneta, não se presta mais atenção nas mensagens... Ficamos desenhando, cochichando e fazendo adivinhações.
    Todos os anos quando ele faz aniversário, um presentinho ele tem de ganhar. Como não lhe dar um belo presente!! Foram várias as fases: a da espada, jogos, carrinhos, materiais escolares... No momento, está entrando na fase do dinheiro! Como gosta de dinheiro! Também, quem não gosta?! Dei-lhe um cofrinho com um pouco de recheio para que ele possa guardar os seus níqueis.
    Deixou de ser carregado a  pouco tempo. A sua mãe dizia:
    - Que coisa feia, um homenzinho no colo da professora!
    Ele balançava a cabeça, revirava os olhinhos de cílios grandes e como quem censura a mãe pelo comentário, diz:                                                     
    - Qué que tem?
    Algumas vezes ele fica triste por não se aceitar como é, e nesse momento ele deixa de ser criança, preocupando-se com a sua vida e comparando-a com as de outras crianças.
    Ele é especial pra mim. Quando ele adoece, meu coração diminui, fica apertadinho... Jamais estarei preparada para me despedir quando chegar a hora de sua partida.

 Samai de Azevedo

sábado, 9 de abril de 2011



O decifrador de códigos

Qual é o seu nick? Você acessa seu MSN pelo dispositivo móvel? Você tem o Google Talk? Qual o seu prófile no Orkut? Tem página no Facebook?
Cada vez mais, ouvem-se conversas como estas na sala de aula. Os alunos socializam esse tipo de assunto com os colegas e professores. Numa era totalmente tecnológica, está cada vez mais importante inteirar-se das novidades para comunicar-se com eles.
Outro dia, uma aluna me deu um “toque” sobre o layout do meu blog alegando que as gravuras estavam se destacando mais que os textos e fotografias. Verdade seja dita: essas crianças conseguem identificar e fazer uso de todas as funções e ferramentas do computador do que classificar um simples substantivo.
Ao utilizar os recursos na sala, deve-se ter bastante cuidado, se não quiser passar vexame. “Aprender a manusear as máquinas faz-se necessário ou os alunos apoderam-se da sua aula: “Aperta o play”, “ Clica no zoom”, “Menu!!”, “Conecta o cabo do áudio” entre outras orientações. O professor deve mostrar segurança. Deve inteirar-se sobre todos os assuntos relacionados às tecnologias, caso contrário eles dominam você. É preciso estar preparado para aquela visitinha no laboratório de informática.
Juntamente com a inclusão digital surgem algumas questões a serem discutidas. Se por um lado incluir digitalmente os alunos algum tempo atrás foi uma conquista, hoje fazê-los entender que é preciso discernir o momento de usar a linguagem virtual e formal é um desafio.
Lembro-me como hoje o dia em que recebi uma prova assinada, somente, com as iniciais. Graças a Deus esta foi generosa e colocou o seu número... Se essa moda pega!!!
Em algumas produções, encontrei palavras como ksa, vc, tb, td, fds, naum, eh entre tantas outras. Não fiz a correção. Chamei as autoras para uma conversinha. Ao serem questionadas sobre o “código”, uma olhou-me como se eu fosse uma pessoa ultrapassada, quem sabe até de outro planeta, prendendo o sorriso num canto da boca, disse: “Professora, a linguagem de hoje é esta.” Por um momento eu pensei: “Como serão agradáveis os meus dias de correção de texto, tentando adivinhar as palavras, como se determinadas caligrafias já não fossem desafios suficientes!!!” Junto com a minha preocupação, surgiu também uma esperança... Partindo dessa problemática, surgiria um outro nível de professor “O decifrador de códigos”. Um especialista em abreviações e linguagens virtuais. Facilitaria a vida dos mestres já cansados. Por que não? (O professor também sonha...)
 Depois de alguns momentos, coloquei os pés no chão e resolvi agir antes que a nova linguagem dominasse a sala de aula.
 Na aula seguinte, apresentei um grande papel branco e nele, um pequeno texto com palavras abreviadas, com exceção de algumas expressões. Na lousa, indiquei o tempo de duração da atividade com o seguinte enunciado: “Reescreva o texto de forma clara”.
Eles disseram-me: “Que é isso? Não estou entendendo nada.” Permaneci calada, sentada à mesa. Os alunos ficaram agitados. “Como vamos saber o que está escrito?”, “Vai demorar muito!” Após esta observação, levantei-me, olhei os alunos por uns segundos e disse com ar de espanto:
- Qual o problema??!!
- Estas palavras...
- O que há de errado com elas?
- Só a senhora entende isso aí! – disse uma pequenina, já perdendo a paciência.
E todos começaram a falar ao mesmo tempo, a resmungar. Então um dos alunos, pediu a palavra e disse em alto e bom tom que não se deve utilizar uma linguagem que não é conhecida por todos, que somente eu utilizo. 
Então eu respirei fundo e desabafei:
- Ufa!! Que alívio! Já que a maioria não conhece, então, é melhor “todos nós” utilizarmos uma linguagem formal, valorizando mais a Língua Portuguesa. Usaremos a linguagem virtual fora da escola, no internet entre as pessoas que já conhecem o código. Eu também estava com dificuldade de entender a linguagem de vocês!!!

                                   Samai de Azevêdo Pereira, agosto de 2010